terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Ambição







Vai meu poema!
Voa por aí fora,
sem crepúsculo
nem aurora.

Sobe,
Desce,
Ziguezagueia.

Pousa na Lua,
em Marte,
em Vénus.

Vai!
Voa!

Eu irei atrás de ti,
para trás deixando
tudo o que já vi.

Poema!
Meu poema!
Monta um cometa,
voa sem destino,
à toa,
pelos tempos infindos,
pelos espaços siderais.

Eu irei atrás de ti,
para trás deixando

tudo o que já vivi.






Do Livro "Memória Inconsumível" - Capítulo  "Pessoal e Intransmissível"


Foto - Google






segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Palmeiras






Setas quebradas
a balançar
no ângulo raso
do trapézio florescente
onde sobe o mar
e desce o poente








Do Livro "Memória Inconsimível" . Capítulo " Interlúdio"








domingo, 5 de janeiro de 2014

A Beleza






Está nos seios sóis
e nos olhos faróis
das crianças
que neles fruem a vida

... na mão
abertamente aberta
para a mão
que lhe é estendida

... na gentileza
de ceder um lugar
e abrir as portas
a quem vai a passar

... na capacidade
de não emendar um erro
com outro erro
que isso é errar a dobrar

... nos movimentos do ginasta
e na passada decidida
de quem sabe o que quer
na caminhada da vida

... no salto da gazela
na pujança do leão
na cabeça vigilante do lagarto
na plumagem do pavão

... nos pássaros
que voam fora das gaiolas
e nos peixes
que nadam fora dos aquários

... na àrvore gigante
que arranha o céu
e na planta minúscula
isolada num deserto

... nas flores
quaisquer que elas sejam
e nos insectos
que nelas fruem o néctar

... na morte
que sacia a fome
já que é da condição da vida
de vida se alimentar

... na técnica e na ciência
que dá olhos aos cegos
faz correr o sangue nas veias
e desvenda o Cosmos

Está por aí
ao alcance de todos
mas há muitos
que a não querem ver






Do Livro "Memória Inconsumível" - Capítulo "Interlúdio"

Foto - Raul Alexandre  www.olhares.sapo.pt






sábado, 4 de janeiro de 2014

Canto do Camponês








É bom
o suor que desce
pela testa
inunda as sobrancelhas
desliza gota a gota
até aos cantos da boca
conflui no queixo
e cai na terra que conquistámos

É refrescante
o suor que desce
pela nuca
engrossa no pescoço
escorre pelo dorso

e rega o chão que é nosso







Do livro "Memória Inconsumível"  - Capítulo "Utopias"


Foto - José Luís Mendes






sábado, 28 de dezembro de 2013

Melancolia









São garras agora
estes dedos
que ontem
julgavam ter
eternizado
a ternura
na tua face

E estes lábios
antes abertos
em dádiva perene
agora se quedam
ferozmente aferrolhados.

São pérolas
perdidas
d'oravante
no vago
estes olhos antes
insaciáveis de tudo

e dos teus ainda mais.






Do Livro "Memória Inconsumível" - Capítulo "Memória Inconsumível"


Foto - Guilherme Afonso








sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Enjoo







Passeando a tristeza,
adiando o suicídio,
ando por aí,

Cismo
na vida
e na coragem
que não tenho
para ir por aí fora
afastando-me
cada vez mais
das raízes
que nalgum lado criei.

E deter-me somente
onde haja uma criança
a chorar.

E deter-me somente
onde haja uma seita
a combater.

E deter-me somente
onde haja uma mulher
ansiosa por se dar
... logo passando adiante

Pelo caminho,
falaria aos pássaros,
falaria às árvores,
falaria à chuva,
falaria ao vento,
sem ter de pensar
no que diria.

Daí nascendo
- quem sabe? -

a poesia.





                                                             
Do Livro "Memória Inconsumível" - Capítulo "Pessoal e Intransmissível"









quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Angústia







No trespassar lento
do tempo histórico
ficam pelo caminho
das vozes repetidas
no clamor do silêncio
os gritos para dentro
de muitos sonhos

despedaçados.









Do livro "Memória Inconsumível" - Capítulo " Pessoal e Intransmissível"

Foto -    queconceito









quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Crepúsculo







Já a vida não desliza
Vai aos solavancos
Conforme o tempo e o lugar
do que à memória ocorre

Porque o presente decorre
vazio de afectos
isento de sobressaltos
morto de quimeras

É viver por viver
sem fim e sem alegria
com os dias a esvaírem-se

afundado em nostalgia.







Do livro "Memória Inconsumível" - Capítulo "Memória Inconsumível"











terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O Canto do Cisne








Na taciturna textura envolvente 
que mata a gente
este é o canto
que eu canto
porque a minha voz
se perde no íntimo
de mágoas presas
a um tempo quimérico
de sonho sonhado

para outros voos.







Do livro "Memória Inconsumível" - Capítulo " Pessoal e Intransmissível"








segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Virulência







Vida sem sal
Vida sem sol

Escasseia-lhe o tempero
O vento a fustiga


Porca de vida!







Do livro "Memória Inconsumível" - Capítulo "Pessoal e Intransmissível"











domingo, 22 de dezembro de 2013

Música







Trovões vibrando
ns voz violenta
embebida de nuvens
inebriantes de ousadia,
eu vos saúdo do recôndito
da minha sonora  melancolia.









Do livro "Memória Inconsumível" -  Capítulo "Pessoal e Intransmissível"









sábado, 21 de dezembro de 2013

Perseverança








Persisto
Insisto
Resisto


E não sairei disto


Venda-se quem se vender
Traia quem trair
Subverta-se o que se subverter


Porque não tranquilamente
como tenho vivido
quero morrer


Que não será morrer
mas ir-me embora
so(briamente).







Do Livro "Memória Inconsumível" - Capítulo "Pessoal e Intransmissível"

Foto -  Sapo 





sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Passarões e Passarinhos







Pássaros empoleirados no galho
repousan aprovisionados dos grãos
que outros produziram mas não comeram


Refastelam-se
Sacodem as asas
Espreguiçam-se
Olham distraídos a paisagem



Usam camuflagem no canto
Voam serenamente nas alturas
Desdenham os piares doloridos
dos que encolhem o papo



Pássaros grandes 
Pássaros pequenos
Necessidades de equilíbrio
ornitológico



Grãos grandes
Grãos pequenos
Necessidades de equilibrio
Sociológico.








Do Livro "Memória Inconsumível" - Capítulo "Pássaros e Passarinhos"






quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Grilhetas








Esfíngicos labirintos
de morte
penetram nos interstícios
da vida


Porque anátemas de pecado original
ou  estigmas de perversão
visam igualmente
os delírios da sublimação


Porque medos ancestrais
grávidos de ignorância
parem fantasmas hodiernos
com a mesma substância


Porque o mesmo espantalho
sob camuflagens várias
emprenham a eternidade
com farsas contestárias


Porque em gaiola pequena ou grande
de arame ou de ferro dourado
dentro dela se atrofiam as asas

do tempo embalsamado.







Do livro "Memória Inconsumível" - Capítulo "Pessoal e Intransmissível"